Um caráter positivo das mídias sociais é que elas descentralizaram o conhecimento e o poder de fala de um grupo restrito de indivíduos, permitindo que outras vozes pudessem se manifestar, compartilhar suas histórias e vivências através da comunicação digital. 

Só que, por outro lado, as plataformas digitais acabam reiterando comportamentos de seus usuários e a cultura em que estão inseridos. Vivemos em uma realidade em que mais vozes podem ecoar suas ideias, vozes de grupos que foram calados e silenciados, e que hoje, confrontam vozes que antes dominavam todo o conhecimento. Só que nem todo mundo tem a mesma força e visibilidade ainda.

Daí a importância de entendermos o conceito de lugar de fala, em um mundo que transborda novas narrativas e pensamentos, para compreender na prática, a importância desse conceito na garantia de ambientes de trabalho capazes de responder à pluralidade de pessoas e lugares de fala que compõem as organizações em meio a ambientes cada vez mais voláteis, incertos, complexos e ambíguos (mundo VUCA).

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O que significa o lugar de fala?

O termo possui diferentes origens e pode ser tratado por diversas linhas de pensamento. Neste texto, nós iremos abordá-lo a partir do ponto de vista social, que coloco holofote nas relações de poder que regem as relações entre indivíduos diversos. Para explicar o conceito, recorremos à filósofa Djamila Ribeiro, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira autora do livro O que é lugar de fala?, uma das principais obras responsáveis por difundir o conceito no cenário brasileiro. Veja abaixo o vídeo em que ela explica melhor o conceito.

 

Djamila define o lugar de fala a partir da desconstrução da ideia de um sujeito universal, ou seja, alguém que fala e representa todas as vozes presentes em uma sociedade, pois a experiência de cada indivíduo importa e deve ser considerada para debates realmente representativos, capazes de empoderar os protagonistas segundo suas experiências de vida.

O conceito aparece com frequência em conversas entre militantes de movimentos feministas, negros e LGBT+, principalmente no meio digital, e potencializadas pelo crescente posicionamento de influenciadores, youtubers e outros criadores de conteúdo que passaram a dar visibilidade à pauta e a gerar discussões nas mídias sociais.

 

Lugar de fala não é sinônimo de fim do diálogo

Muitas polêmicas criadas sobre o tema são geradas pelo seu desentendimento teórico e sua aplicação durante as conversas. Todo mundo possui um lugar de fala, seja você uma pessoa branca, negra, da comunidade LGBT+, com deficiência ou não. O que está em jogo é a garantia de que diferentes vozes tenham espaço para falar e serem ouvidas, evitando que uma minoria de indivíduos fale pela maioria.

Respeitar lugar de fala não significa encerrar as conversas por falta de vozes, pelo contrário, significa incorporar mais visões de mundo na elaboração de uma ideia, um projeto, pensando nos ambientes das empresas, na criação de novos serviços e produtos. Significa passar o microfone para as mães quando o assunto é maternidade no ambiente de trabalho, ou para pessoas negras quando o assunto é política de igualdade racial, para as pessoas com deficiência quando se discute iniciativas de acessibilidade. Onde os diferentes grupos alternam entre as posições de protagonistas e coadjuvantes conforme as experiências de cada um, viabilizando que mais vozes sejam consideradas em tomadas de decisão.

 

Lugar de fala e representatividade: quais as relações?

Os dois conceitos não são sinônimos, mas estão diretamente conectados e andam de mão dadas. A partir da representatividade de grupos historicamente sub representados em diferentes esferas de tomada de decisão, é possível garantir lugares de fala desses grupos, que passam a serem os tomadores de decisão sobre assuntos que lhes dizem respeito. Em outras palavras, passam a ser protagonistas nos processos decisórios, trazendo novas soluções.

Por isso se fazem tão necessárias as iniciativas das áreas de Diversidade e Inclusão em busca de maior representatividade nas organizações. Os dados sobre desigualdade de representatividade são alarmantes, demonstrando um longo caminho a ser percorrido para a garantia do poder de fala de diversos grupos, no cenário brasileiro: mulheres em cargos de liderança em empresas no país somam apenas 3%, como aponta a pesquisa realizada pela Bain & Company em parceria com o LinkedIn, profissionais negros no corpo executivo de grandes empresas somam apenas 4,7% segundo estudo liderado pelo Instituto Ethos, e a lista de desproporcionalidade contínua, envolvendo pessoas LGBT+, com deficiência, 60+, imigrantes

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O fortalecimento de estereótipos

A ausência de representatividade e de lugares de fala em esferas de poder também potencializa a criação de estereótipos sobre grupos sub representados. Em suma, estereótipos são generalizações sobre grupos sociais, ideias e imagens preconcebidas sobre algo ou alguém. Eles não são exatamente os “vilões” da história, pois são criados como forma das pessoas organizarem as informações. O problema começa quando esses estereótipos limitam, simplificam e restringem a comunicação, reproduzindo padrões e comportamentos que não representam as vivências dos indivíduos.

Os estereótipos produzem visões simplificadas e não representativas das pessoas, é o que prova a pesquisada realizada pelo Kantar em 2019, que investigou mais de 2000 propagandas do Festival Cannes Lions na última década, chegando à conclusão de que 76% das mulheres consideram que não estão sendo retratadas de forma adequada na publicidade.

 

O lugar de fala também é lugar de escuta

Começamos o texto comentando sobre o positivo aspecto das mídias sociais em possibilitar que mais vozes tivessem lugar de fala, e finalizamos ressaltando a importância de não perdermos de vista a necessidade de escutar outras vozes, entender sua importância na desconstrução de estereótipos na comunicação e no fim da perpetuação de desigualdades nos espaços.

O lugar de escuta de outras vozes significa assumir nossos privilégios individuais e permitir o protagonismo de outras pessoas em situações em que elas possuem propriedade para falar, a partir de suas vivências. Todos nós possuímos lugares de fala e escuta, tomar consciência desses papéis é o caminho para a criação de organizações mais inclusivas.