Acessibilidade não é rampa

Pelo menos, não só. Quando falamos no termo acessibilidade, a rampa é a primeira imagem que vem a sua mente? Ou então, os banheiros adaptados e pisos táteis?  Se sim, está tudo bem, você não está sozinho! Esta é umas das dimensões da acessibilidade, a chamada arquitetônica ou física, uma das mais conhecidas no Brasil, ou pelo menos mais visível, pois está cada vez mais presente nas cidades e nos ambientes de interação social, como escritórios, escolas, bares e lojas. Existem outras seis dimensões da acessibilidade defendidas pelos estudiosos do assunto: comunicacional, metodológica, instrumental, programática, atitudinal e tecnológica, se trabalhadas juntas, viabilizam a equidade de acessos a diferentes esferas sociais para a população, levando-se em consideração sua diversidade.

Leia: Por que precisamos ampliar a definição de diversidade se quisermos uma cultura inclusiva

Neste post, vamos abordar o impacto do investimento em acessibilidade em suas diferentes dimensões na criação de jornadas cada vez mais positivas de employee experience e customer experience.

 

Recrutamento e seleção

A acessibilidade tem que estar no primeiro contato com o funcionário. No uso de plataformas digitais intuitivas para navegação e uso acessível das tecnologias assistivas, como leitores de tela utilizados por pessoas com deficiência visual; no uso de linguagem acessível, como a aplicação da linguagem neutra de gênero na descrição das jobs; na divulgação de informações referentes à empresa e demais aspectos da sua cultura em canais diversos, capazes de alcançar grupos com menos oportunidades de acesso ao mercado de trabalho, como moradores das periferia, pessoas com deficiência, refugiados, pessoas mais velhos, etc.

Claro que cada um desses grupos possui suas especificidades de acessibilidade, que demandam planos de ação focados e variam conforme os modelos e estratégias de cada organização. Porém, é essencial que o primeiro contato da jornada dos funcionários seja acessível para potencializar a experiência do usuário e inclusive, contribuir para a estratégia de retenção de talentos. Segundo a pesquisa, Sem Atalhos, elaborada pela Bain Company em parceria com o LinkedIn, empresas que investem em políticas de diversidade possuem colaboradores mais engajados.

 

Mapeamento inicial

O processo de seleção também é a hora de mapear as principais necessidades de acessibilidade de cada candidato, a seguir, alguns pontos que não podem ficar de fora dessa checagem inicial:

  • Infraestrutura: investigar características do local de trabalho e translado casa/trabalho/casa que sejam essenciais para viabilizar uma rotina de trabalho. Rampas de acesso, sanitários, mobiliário, isolamento acústico, luminosidade das estações de trabalho e espaços comuns, são alguns pontos que devem ser verificados e que variam conforme cada pessoa, principalmente, em relação à diversidade de deficiências.
  • Ferramentas de trabalho: investigar a acessibilidade de softwares, aplicativos e demais ferramentas de trabalho, para se certificar se há necessidades específicas de adaptações e/ou aquisições de outras alternativas.
  • Canais de comunicação: investigar as características de acesso à informação para garantir a criação de conteúdo com acessibilidade nos canais de comunicação, como vídeos legendados e se for o caso, com libras; audiodescrição, fontes grandes e com contraste, newsletter, apps de vídeo conferência, formatos de treinamentos, etc.

Onboarding e employee experience

O período de chegada e treinamento de novos funcionários deve servir como uma imersão na cultura e valores das organizações, é o momento ideal para deixar clara a preocupação na construção de uma cultura inclusiva e apresentar iniciativas concretas que demonstrem acessibilidade atitudinal da organização, isso é, a abertura para o diálogo sobre diversidade e inclusão e o esforço para evoluir essas questões no ambiente interno.

Demonstrar interesse e empatia para a necessidade de cada pessoa é o pontapé inicial na construção de experiências positivas e duradouras. Ser acessível em suas diferentes dimensões e públicos é uma tarefa que demanda muito aprendizado e disposição para o diálogo, capaz de revelar as as dores do usuários e a criação de soluções inovadoras.

 

Melhorias diárias através do Design Inclusivo

Resolva para um, estende para muitos. Esse é um dos princípios que embasam a metodologia do Design Inclusivo defendido pela Microsoft e outras empresas de tecnologia, como a IBM e a Apple, por exemplo. Essas empresas possuem laboratórios de pesquisa para a criação de novas tecnologias a partir do preceito de que precisamos reconhecer as exclusões da nossa sociedade, aprender com a diversidade e em seguida, criar soluções que possam ser acessadas por todos.

O design inclusivo vai desde à eliminação de barreiras físicas, de ruídos e luminosidade nos ambientes de trabalho, à diversificação das plataformas de comunicação, como o aumento exponencial do mercado de podcasts como alternativa para conteúdos em texto, e o aprimoramento da experiência do usuário através de ações de UX e desenvolvimento.

 

Acessibilidade x Adaptação

Esse é o ponto chave para as organizações que desejam adotar a acessibilidade como estratégia de inovação, pois o mercado, principalmente nacional, continua encarando adaptação como sinônimo de acessibilidade. Para entender a diferença, vamos fazer a metáfora da casa: 

Imagem que a casa com acessibilidade é aquela que foi planejada antes da construção, que possui uma planta que prevê possibilidades de ampliação de área e de pavimentos, por exemplo. A casa adaptada é o famoso “puxadinho”, que é construído de improviso e sem planejamento e, normalmente, destoa em estética e acabamento em relação à casa original. 

O mesmo exemplo pode ser aplicado às organizações, se serão construídas de forma acessível ou adaptada, se farão da acessibilidade apenas uma obrigação ou a usarão como fonte de inovação. Claro que não é um processo simples e rápido, ainda mais para as grandes e de longa data, que possuem processos cristalizados, porém, é um passo essencial para a criação de produtos e serviços inovadores no futuro, capazes de acompanhar as mudanças de comportamento das novas gerações e proporcionar novas experiências.