“Ser pai é isso: não dá para ser perfeito, mas dá para ser presente”. Essa frase é o mote da campanha da Reserva de dia dos pais, construída com o Lázaro Ramos (vídeo abaixo). De acordo com a pesquisa “Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero”, iniciativa do Papo de Homem e da ONU Mulheres, 8 em cada 10 pais querem passar mais tempo com seus filhos.

Diversas são as pesquisas que mostram como a presença paterna é fundamental para o desenvolvimento da criança. Em uma pesquisa realizada pelo Google, 88% dos homens brasileiros declararam que ser um um bom pai significa participar ativamente da rotina dos filhos. Mas a prática no Brasil está distante disso.

Aqui, culturalmente e socialmente falando, parece natural que a criação dos filhos ainda fique à cargo das mulheres. Mais de 5,5 milhões de crianças matriculadas no sistema educacional do país não têm o nome do pai em seus documentos, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgados em 2013. Além disso, mais de 80% das crianças de até 4 anos têm como primeira responsável uma mulher (seja mãe, avó, mães de criação ou madrastas).

A pergunta que fica é: O significa a paternidade e como as empresas podem potencializar o debate sobre a importância do papel ativo dos homens na criação de seus filhos?

A licença paternidade como iniciativa pela Igualdade de Gênero, fomentada pelo setor público

Direcionar as empresas para o caminho da diversidade é um desafio necessário no cenário em que estamos vivendo. São inúmeros os estudos que indicam que a empresas com times diversos, apresentam soluções mais criativas e inovadoras para seus desafios. A consultoria McKinsey, por exemplo, revelou um estudo que relaciona o aumento da diversidade com uma saúde financeira mais próspera das instituições.

Contudo, alcançar um time diverso vai além do processo de contratação, pois exige a retenção desses talentos, através de medidas que reflitam a valorização destes indivíduos. Falar de diversidade é muito amplo. Um dos temas que vêm sendo discutidos há mais tempo está relacionado a equidade de gênero. Neste caso, dois assuntos se destacam: igualdade salarial e o período de licença paternidade e licença maternidade. O Programa Empresa Cidadã atraiu algumas empresas para expandirem o período de licença-paternidade para os 20 dias. Contudo, são poucas as organizações que se enquadram dentro dos critérios para benefícios fiscais, tornando a abrangência limitada.

Indo além: empresas que investem em uma cultura de paternidade ativa superando a legislação

Apesar da lei de incentivo, as empresas são livres para oferecer aos seus colaboradores períodos mais extensos de licença. A Natura, por exemplo, oferece 40 dias de licença-paternidade. A medida reflete como a empresa quer ser vista em termos de cultura. De acordo com Marcos Milazzo – diretor de remuneração e reconhecimento da Natura – a proximidade do pai nesse período é importante para toda família, principalmente para estabelecer um vínculo com o bebê. Para ele, além de ser um diferencial no mercado, o benefício contribuiu para um colaborador mais dedicado e reflete uma relação de trabalho mais moderna.

A Johnson & Johnson oferece 2 meses de licença, permitindo que o tempo seja distribuído no momento em que o funcionário achar mais adequado durante o primeiro ano de nascimento do filho. Essa flexibilidade permite que o pai utilize a licença depois que a mãe já voltou a trabalhar, seguindo com a presença parental do recém-nascido, por exemplo. Seguindo a mesma lógica, o Facebook também oferece a licença estendida, mas nesse caso o benefício pode chegar a quatro meses.

Mas o grande destaque é a sueca Spotify. A empresa segue a cultura do país e oferece, no mundo inteiro, a licença de até 6 meses. O país escandinavo enfatiza o equilíbrio entre trabalho e família, igualdade de gênero e habilidade dos pais de passar tempo de qualidade com os filhos. Importante ressaltar que o benefício também se estende a pais adotivos. Ainda, para ampliar a flexibilidade, os 6 meses de licença podem ser usados nos 3 primeiros anos da criança. Além disso, a empresa adota um retorno ao trabalho progressivo, permitindo home-office, meio período e horários flexíveis.

Paternidade Ativa: uma mudança necessária

Expandir o período da licença é incentivar a paternidade ativa, fugindo cada vez mais do estereótipo de que é a mulher quem deve zelar pela casa e família, enquanto o homem deve ser o provedor. De acordo com Victor Farat, um dos idealizadores do Bebegrafia, o termo ‘ativo’ – de paternidade ativa – é um chamado para que os pais sejam cuidadores também em parceria com as mães.

A Unicef e outras três instituições publicaram, em espanhol, o “Guia da Paternidade Ativa para pais” com diversas dicas práticas. Entre elas, alguns destaques: ter uma relação afetuosa e incondicional com o filho; participar dos cuidados diários e da criação do seu filho dando comida, ajudando-o a se vestir, colocando-o para dormir e ensinando-o; manter uma relação que vá além do provimento financeiro.

Segundo o documento, o papel do pai é permeado por níveis. O nível prático consiste no cuidado e preocupação com as necessidades e demandas dos filhos e os afazeres domésticos. O segundo nível consiste na presença emocional e criação de elos com as crianças. E em terceiro nível está a consciência da responsabilidade do papel de pai e a influência dessa relação no nível social. Com exceção de algumas funções biológicas como parir e amamentar no seio, as funções parentais devem ser compreendidas como responsabilidades conjuntas. O pai não ajuda a mãe quando cuida do filho. Ele apenas cumpre o seu papel. Além disso, a distribuição equânime de tarefas também alivia a pressão do homem ser o provedor do lar.

O vídeo abaixo apresenta os “4 níveis da paternidade ativa – o que são e como praticar”, elaborado em parceria entre a Cabify e Papo de Homem.

O mercado de trabalho e os desafios para a prática da paternidade ativa

Contudo, há outro empecilho para que os pais exerçam seus direitos. Mesmo oferecendo um tempo maior de licença-paternidade, o benefício é opcional e muitos homens acabam sentindo desconforto ou medo em se afastar do trabalho por mais tempo do que a lei obriga. Nos Estados Unidos, por exemplo, a consultoria Deloitte realizou um levantamento em que mais de um terço dos entrevistados, incluindo homens e mulheres, temiam que o afastamento pudesse prejudicar sua posição no emprego. Além disso, 57% acredita que usufruir do benefício poderia ser encarado como falta de comprometimento com trabalho e 41% indicou não querer perder oportunidades de projetos.

Apesar disso, alguns dados comprovam que, aos poucos, essa insegurança vem sendo reduzida. Na Califórnia, o percentual de pais que se sentem confortáveis a tirar a licença estendida saiu de 17% para 25% nos últimos 5 anos. É importante ressaltar que o medo não é infundado. Historicamente, a maternidade se confirmou um obstáculo para mulheres no âmbito profissional. Contudo, vale ressaltar que pesquisas revelaram que, os homens ganham uma espécie de bônus paternidade, com uma média de aumento salarial de 6% por filho.

Caminhos possíveis para uma cultura que estimula a igualdade de gênero e a paternidade ativa

Torna-se fundamental que as empresas adotem diversas medidas que incentivem a presença do pai diante da família. Esta reflexão e este debate devem ser incentivados para que a cultura organizacional estimule que seus funcionários tenham um bom equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

Além de treinamentos, palestras e workshops sobre o tema, as empresas podem também criar ações que reforcem a valorização da presença de seus colaboradores no lar. Dias para levar as crianças ao trabalho, por exemplo, permitem que os filhos conheçam a rotina da empresa dos pais, aproximando a família e transformando o ambiente empresarial em um local mais amigável e confortável para tratar destes temas. Essa medida revela uma abertura do ambiente profissional ao entender que seu funcionário possui uma vida além do trabalho.

Outra forma de contornar esse tabu é abrir um espaço onde pais possam conversar e trocar experiências sobre paternidade. A Cabify, por exemplo, promoveu a Roda de Conversa sobre Paternidade Ativa através da qual, os colaboradores puderam conversar sobre paternidade, seus papeis e expectativas sobre eles. Outra prática empresarial que merece destaque é do Grupo Boticário. A empresa possui um Grupo de Gestantes em que gestantes, mães e pais recentes compartilhem suas experiências, tirem dúvidas e atravessem esse período de forma mais confortável.

Call to action para o cenário brasileiro: uma transformação necessária

Dentre os 15 países com maior período de licença, 13 são europeus e 2 asiáticos (Coreia do Sul e Japão). O Brasil ainda está longe dessa lista de referências, por isso empresas nacionais como a Natura ganham ainda mais destaque por suas iniciativas de estímulo à participação dos homens na criação dos filhos.

A transformação da sociedade não depende apenas das organizações, mas é inegável que a participação das empresas é fundamental para buscarmos um país mais igualitário. Diante de tantas mudanças, empresas que optarem por manterem ações conservadoras estarão fadadas a perder talentos, engajamento, produtividade e resultados.

Mudanças não são fáceis de serem aplicadas, mas o primeiro passo e estar munido de informação para alterar essa realidade. Assine a Newsletter da Blend Edu pelo nosso site e acompanhe mais boas práticas e matérias sobre como avançar a igualdade de gênero e a diversidade na sua empresa.